Isso aqui poderia ser simples. Poderia ser somente um nome.
Um nome inventado, como tudo o mais que figura nessas páginas.
Um tão bom quanto qualquer outro.
Mas só isso não quer dizer nada. E, francamente, também nem teria graça.
Eu sou mais do que um nome.
Sou um punhado de lembranças. Um pouquinho de cada pessoa que amo.
E um pouquinho de mim mesma.
Sou minha força e meus medos. Ainda que eles próprios sejam uma coisa só.
Mas minha essência são os sonhos.
A proporção entre defeitos e qualidades é desigual. Reconheço. Os primeiros vêm em maior quantidade.
E existe força nos meus olhos. Ou talvez sejam só lágrimas, que congelaram sem cair.
E tornaram meu olhar gelado.
Mas isso não importa, porque eu gosto mesmo do inverno.
Gosto de escrever quando está chovendo, do frio; e principalmente do cheiro bom que tem um livro recém aberto.
Sou fruto do tempo.
Medido em páginas de diário.
Relógios são supérfluos; porque há horas que não importam nada e apenas passam.
O que não passa é aquilo que valeu a pena ser escrito.
Também não desejo a imortalidade. Ela não é tão sedutora quando se percebe que há momentos mais valiosos do que toda a eternidade.
E de tudo, não se esqueça dos segredos.
Existem palavras escondidas nas minhas gavetas.
Frases perdidas em baixo do meu travesseiro.
E páginas que amarelaram sem virar história.
Confesso que essas são o que há de mais abundante. Mas ainda assim eu quero escrever.
Porque eu gosto dessa estrada, mesmo que seja a mais longa de todas.
________________________________________
A palavra...
“No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus; e a Palavra era Deus. No princípio, estava ela com Deus. Tudo foi feito por ela e sem ela nada se fez de tudo o que foi feito. Nela estava a vida e a vida era a luz dos homens. E a luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram dominá-la. Era a luz da verdade, que, vindo ao mundo, ilumina todo o ser humano. A palavra estava no mundo – e o mundo foi feito por meio dela – mas o mundo não quis conhecê-la.”
João 1, 1-5.9-10