Capítulo 1
One Shot
Obs: Contém detalhamento do acidente fatal, sob minha visão, leia por sua conta e risco.
A FIA, os pilotos, equipes, pistas e r0;personagensr1; citados aqui não me pertencem.
Olá pessoal, tudo blz? Essa one-shot foi meu jeito de homenagear meu segundo piloto favorito de F1, Gilles Villeneuve. Com sua coragem e ousadia, conquistou milhares de fãs correndo pela Ferrari. Dia 8 de maio fez 27 anos de sua morte, fato que se não houvesse sido consumado, a família Villeneuve poderia ter dois mundiais para exibir em casa =D.
Era um certo 8 de maio de 1982. Estava ensolarado, uma bela tarde belga em Zolder. O ronco dos motores era algo que me encantava desde pequeno. Os boxes dos Grandes Prêmios eram minha casa, também da minha mãe, Johann Barthe, e da minha irmãzinha Melanie. Como o trabalho de meu pai exigia mobilidade, dormíamos no motorhome daquela equipe cavalino, onde o símbolo era um cavalo negro empinado até o auge, tornando para si o destaque do escudo amarelo ao fundo. Meus colegas tinham inveja, pois seus pais nunca sentaram no cockpit da Scuderia Ferrari como o meu. Aquele bólido rosso emanava uma áurea em quem estava no cockpit que dava uma... um ar de poder e superioridade, afinal eu estava brincando com o volante do carro de Gilles Villeneuve, meu pai. E era ele que eu avisto, com seu macacão em vermelho sangrento, parecendo aqueles homens-propaganda cheio de logomarcas estampadas. Em sua mão direita carregava seu eterno capacete e aquele pano usado para proteger o rosto do piloto (chamado balaclave).
Minha irmã foi correndo abraçá-lo. A altura dela passava um pouco da cintura do herói canadense. Papai passa o abraço livre pelas costas dela e lhe dá um sorriso. Logo direciona seus olhares à minha mãe, que se encontra levemente corada. Naquelas delicadas mãos, um cronômetro pronto para ser usado. Naquela época de ouro do esporte, era comum as esposas dos gladiadores das pistas fazerem esse ato. Nesse momento, a vida profissional e pessoal se fundem numa só.
Semelhante a imãs que se atraem, meus pais se aproximaram um do outro e se beijaram. Enlaçando seu braço na mamãe, com ambos me fitando, ele pergunta:
-Tá confortável pro papai, Jacques? -Sim, pai! Wow, esse volante é grandão né?
O grande Villeneuve se aproximou ao meu lado, ficando numa posição agachada, para comentar:
-E tem um cavalinho burro dando coices ao vento – disse em tom de brincadeira, apontando para o escudo da famosa marca italiana estampada no centro do volante.
-Pai, quero ser piloto igual ao senhor! -Hehehe, não seja igual, Jacques, seja melhor! ^^ – sorri – agora deixa o papai sentar aí.
E prontamente saí do carro, dando lugar ao real dono. Meu pai usa a proteção de rosto (balaclave) e põe o capacete, com a viseira ainda aberta. Minha mãe olha apreensiva para o concentrado olhar de meu pai perdido ao horizonte. Ela sabia o que aquilo significava.
Noite anterior
-Aquele francês é um filho da puta. Ele não podia ter feito aquilo comigo! É tradição da Ferrari pilotos não disputarem posições, aliás era, Pironi mandou a tradição pro caralho!
-Calma, querido! Não se estresse!
-Acabou! Eu juro que minha resposta amanhã é ele ver a traseira do meu carro à sua frente, isso se ele ver! Vou ficar na frente dele, tentar a pole! Sempre!
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Eu havia escutado o desabafo todo. Papai estava fulo com o seu companheiro de equipe, o francês Didier Pironi. Não engolira aquela ultrapassagem duas semanas antes, em Ímola, que acabou com a convivência pacífica entre os pilotos do time italiano. Papai estava deteminado numa “vingança”. Ele piscou para minha mãe. Por baixo do capacete, um sorriso não-visível, como se estivesse interpretando a aflição da senhora Villeneuve. Faltavam 10 minutos para o término do qualifying. O bólido se afastava de nós. Era a última vez que veríamos meu pai são e a carroceria, do mesmo modo. E para papai, a última vez que encontraria a March do alemão Jochen Mass pela frente.
O alemão segurou a onda do seu carro na entrada de uma curva, enquanto o canadense, mantendo o mesmo arrojo e coragem pelo qual era conhecido, manteve o carro no limite. A roda dianteira esquerda da Ferrari toca na roda traseira direita da March, provocando a perda da pressão aerodinâmica do carro do canadense, resultando no efeito “catapulta”.
Igual a um tamanduá em posição de ataque, a Ferrari arrasta sua traseira pelo asfalto, passando por uma zebra e atingindo o gramado. O guard-rail o esperava. Mass continuava seu trajeto sem saber da tragédia que estava se formando, até que, após completar a curva em “S”, vê algo vermelho, se desfazendo em pedaços, e dos destroços, alguma coisa que se assemelhava a uma forma humana, atravessando à sua frente. A carroceria não aguentara o choque contra o guard-rail e as seguidas capotadas, fazendo com que o bólido se partisse em dois, o cinto de segurança se soltasse e que Gilles, o “canadense voador”, desse a derradeira prova de o porque era chamado assim. Jochen teve apenas a habilidade de piloto de F1 para se desviar do que sobrara da Ferrari.
O alemão tentava entender o que acontecera. E olhar alguém com o macacão da Scuderia do outro lado da pista, estirado ao solo, próximo à uma grade de proteção, foi a pior maneira de achar uma pista. Ele queria ver, para ter certeza que era ele, ele queria. Mas, foi automático. Um piloto deve sempre seguir em frente, ir para frente, avançar, correr, pisar fundo, acelerar, assim o instinto falou mais alto. Não era mais assunto dele, nem do piloto que surgira a seguir, também se desviando do resto da Ferrari.
Eu olhei aquela cena pela TV dos boxes. Mamãe estava estática, de boca aberta, pronta a chorar. Melanie não parava de chamar pelo nosso pai, se agarrando ás pernas de mamãe.
-MEU DEUS!! GILLES!!!!! ALGUÉM AJUDA O MEU MARIDO!!!!!!!!!
A senhora Villeneuve afasta a pequena e sai correndo para fora dos boxes, como se pudesse, a pé, chegar até o local e ainda fazer algo pelo amado. Se eu fosse analisar a cena friamente, diria que mamãe esqueceu que tinha dois filhos para criar e parecia que tudo na vida dela era Gilles. Será que era momento apropriado de eu me sentir enciumado?? Que mulher não teria reação similar? Mas ela foi contida pelos mecânicos, o mesmo com a Melanie. E eu... esse só ficava olhando para TV, com o senhor Walker narrando aquele velório forçado e trazendo bons índices de audiência á BBC.
-O meu marido, eu preciso ver meu marido, preciso estar lá!!! – ela gritava, chorava, se enlouquecia, um dos mecânicos tentava tranqüilizá-la.
-Calma, senhora! A ambulância já está a caminho e a senhora lá só iria atrapalhar – em vão.
-Calma??? Como pode me pedir calma??!! Eu quero vê-lo, agora! Quero ver como ele está!
Começou uma discussão nos boxes. No paddock, o clima era tenso após todos se ligarem do acontecido. Mas ninguém percebia a grande preocupação de Nelson Piquet, piloto brasileiro da Brabham-BMW, campeão do mundo no ano anterior: há uma hora e meia atrás estava dando uma entrevista, quando apareceu Gilles lhe fazendo uma brincadeira. Piquet disse: “Esse canadense é muito gente fina. Na pista parece um demônio, mas fora dela é um amor de pessoa”.
Perplexo, acompanha os primeiros-socorros. Uma fiscal de pista acena uma bandeira vermelha. Um carro guindaste chega para recolher a carroceria. Piquet não agüenta ver aquilo e tem um desejo repentino de ir ao boxe da Ferrari. Eu me pus em lágrimas, mas não tirava os olhos da TV. Mamãe e Melanie compartilhavam o choro em abraço mútuo. Alguém da equipe lhe traz um copo d’água, o qual ela esbofeteia, quebrando em pedaços no chão.
-Eu não quero água, porra, quero Gilles! Vocês vão me levar lá agora! – bradou a senhora Villeneuve.
Vendo que seria impossível conter a teimosia da futura viúva, decidiram pegar um carro e ir até o local. Eu quis ir junto. Antes de a gente por o primeiro pé para fora dos boxes, aparece Piquet, pisando forte, com um furioso olhar, pronto para bradar:
-Que porra de carro é aquele que não agüenta nada!? – todos ficaram arregalados com aquela interrogação – Como um piloto pode se soltar daquele jeito? – perguntava á equipe rival, sem obter resposta. Do fundo da “casa” da equipe, surge o criador e o todo poderoso comendador Enzo Ferrari:
-Você está louco Piquet? O que está querendo dizer?
-Todo mundo sabe que fez um carro com carroceria leve para ganhar uns segundos a mais... uns segundos a mais para morte!
Os demais acompanhavam aquela discussão sem se meter. Minha mãe se vira para o comendador com uma cara de quem não queria acreditar no que estava a ouvir:
-O que significa isso?? – pergunta ela com uma voz dominada de uma iminente raiva. O comendador surpreende-se com a pergunta.
-O que a senhora está a insinuar?
Piquet responde por ela:
-Que vocês mataram ele!
-Isso é uma calúnia! – reage o dono da equipe – Eu trato o Gilles como se fosse meu filho!
-Como aquele “seu” filho que morreu de desgosto do pai!
-Olha aqui, seu merda! Lave essa sua boca imunda, asquerosa, podre ao falar do meu filho!
-Eu reconheço que pisei na bola! Mas com aquela carroceria tão leve que um carro de bate-bate, como você acharia de que jeito terminariam seus pilotos? AQUILO É UM CAIXÃO SOBRE RODAS!!
-Saia daqui!!!! Saia daqui!! – Sr. Enzo foi contido antes que fosse agredir fisicamente o piloto da Brabham. Este por sua vez se retira, mas antes de sair, deu a última olhada para família Villeneuve. Ele segue para sua equipe, cabisbaixo:
-Pobre família. Não tenho coragem de dizer à eles: dessa o canadense não escapa – pensa consigo mesmo. E assim segue Piquet.
No local Lá não tinham muito que fazer. Deu apenas tempo de ver Villeneuve sendo transportado para ambulância. Levariam para o hospital urgentemente. Todos tinham uma certeza: era grave. A senhora Villeneuve pediu para ir na ambulância, mas este foi negado devido ao seu estado alterado. Nós seguimos para o hospital acompanhando a ambulância de perto. A única coisa que nós pensávamos, era que dentro de instantes ou dias, papai apareceria em casa, com aquela cara de sonso, como se não tivesse acontecido nada, e nós recebendo-o de braços abertos. Mas ás 9:12 da noite, o médico veio nos dar a notícia:
“Vocês tem de ser fortes... fizemos de tudo, tudo, tudo o que estava ao nosso alcance. Mas foi em vão... Ele estava com o pescoço fraturado... lesões no dorso... algumas hemorragias internas... e... o falecimento foi consumado... sinto, sinto muito... eu não queria que terminasse tudo assim...”.
O doutor sentiu tanto o baque como nós, mesmo não tendo nenhum laço de sangue conosco. Mas sua humanidade, ali naquele momento, jamais foi esquecida. E assim foi-se Gilles Villeneuve.
Jerez, Espanha, 26 de Outubro de 1997
-É a 48ª volta para o Grande Prêmio da Europa, em Jerez de La Frontera, de Formula 1. Jacques Villeneuve e Michael Schumacher disputam uma posição. Villeneuve chega para fazer a curva Dry Sac lado a lado com o alemão. Villeneuve por fora, Michael por dentro... – esse era o velho Walker, agora narrando o Villeneuve filho. Michael precisava de passar por Villeneuve, mas era difícil. Era última corrida do campeonato de 1997. E valia o título. Villeneuve tinha 77, Schumacher 78. Não restava dúvida para o piloto da Ferrari.
-Eu vou mandar esse canadense pra escanteio!
-Schumacher vem por fora, Villeneuve por dentro, Schumacher se aproxima muito de “Vill”...
-Hã!? Merda, se eu não me segurar, a gente vai bater...
-JACQUES!!
-Hã?! Essa voz...
-Seu pentelho! Não me reconhece não??
-P-pai?
-Não, Santa Claus ¬¬
-Não to entendendo...
-Não me faça pedir DNA, sua besta¬¬ . Você quer muito ganhar esse título não quer?
-Sim!
-Então segure esse carro na pista pelos próximos segundos! Mostre que você tem meu sangue, mostre que você é um Villeneuve!
-Pai? PA... ARGH!! Que é isso?!!!
-Cai fora, novato!!!
-Schumacher e Villeneuve se chocam! Parece que alguém vai rodar! OH-OH-OH-OH – gemidos de orgasmo – OH-OOOOOH!!! SCHUMACHER OUT!!!!!!! A PLATÉIA DELIRA AQUI EM JEREZ! O ALEMÃO LEVOU UM “CHEGA PRA LÁ” DE VILLENEUVE E ESTÁ NA GRAMA!
No Pódio
-Vamos ao anunciamento. Em terceiro lugar, Jacques Villeneuve, da Williams-Renault; em segundo: David Coulthard, da McLaren-Mercedes; e em primeiríssimo lugar, vencedor do GP, Mika Häkkinen, também da McLaren-Mercedes! Cavalheiros! Antes de abrirem suas champagnes, devo anunciar o vencedor da temporada. Esse troféu que carrego... vai para você, Jacques Villeneuve!
Jacques recebe o troféu e uma coroa de louro, que repousava por volta de seus ombros. Ele ergue o troféu aos céus, com o olhar acompanhando a ação. Faz um agradecimento:
-It’s for you... Father.
CURIOSIDADES
-Levei um pouco de tempo para reunir estatísticas e informações sobre os pilotos na data do fatídico acidente, equipes, pessoas, tudo cuidadosamente para não haver erros históricos.
-O Murray Walker é um famoso narrador de F1 da Inglaterra. Parece que desde a década de 50 que ele narra, recentemente a F1 perdeu a sua voz, agora passa narrar outras categorias. Fiz uma piada com o "grito" e o de "Schumacher Out" pois o mesmo tratamento foi dado quando Mika Häkkinen abandonou uma prova e Murray teve esse surto xD~. Ele é para comunidade internacional o que Galvão Bueno é aqui. É conhecido também por falar coisas óbvias e non-senses em suas narrações, conhecido esse fenômeno por "Murreyism", em inglês. No youtube digitando o termo, achará vídeos de fãs que reúne o melhor do narrador inglês. Aqui um site http://es.wikipedia.org/wiki/Murray_Walker (espanhol).
-A personalidade de Gilles como seu lado palhaço no final do one-shot foi definida por mim devido a uma futura série de fic que pretendo fazer com pilotos de F1, sendo que na fic, Gilles tem uma personalidade cômica.
-Schumacher foi desclassificado por atitude antidesportiva, perdendo seus 78 pontos conquistados até então, mas estes não foram descontados da Ferrari, que termina o mundial em segundo, atrás da Williams.
-Na fic, Piquet cita o filho verdadeiro de Enzo numa forma camuflada, Alfredo Ferrari, que morrera em 1956, aos 26 anos, sofrendo de distrofia muscular progressiva. Isto fez com que se torne uma pessoa amarga. Desde então Enzo nunca mais pisou numa pista de corrida e passou a usar os inseparáveis óculos escuros.
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