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Capítulo 15
Capítulo 11 - Fogo ascendente

     









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   Melvin continuou com seus olhos fixados sobre o corpo aparentemente morto de Adler. Sangue escorria pelo pescoço do homem onde a flecha estava fincada, resvalando e tingindo as flores sem vida sob ele. Seus olhos ainda abertos lhe davam uma feição medonha. O mago aproximou-se lentamente ainda em choque pelo o que ocorrera.

   Florisval sentia sua respiração acelerada, e seu corpo ainda tremia com suas mãos segurando o arco. Seus olhos, apesar do ódio, também apresentava nervosismo por executar tal ação. Vagarosamente ele desceu os braços, e largou o arco no chão. Pulou a janela de casa, e correu de forma ofegante até o campo, dirigindo-se para onde Melvin e Adler se encontravam.

   O som dos passos amassando a grama e as flores já sem vida do campo tornou-se mais audível para o mago. Este continuou a fitar o homem morto, mesmo após a chegada de Florisval. Melvin agachou-se e tocou o pulso de Adler.

- Ele está morto? – perguntou o camponês. Pelo tom de sua voz era percebível que queria uma resposta afirmativa. Melvin pousou seus dedos sobre os olhos de Adler, e os fechou.

- O que você acha? – disse o mago parecendo óbvio depois que os olhos do nobre se fecharam. Florisval sentiu-se aliviado, mas ao mesmo tempo culpado. Entretanto, por mais que tenha feito algo maldoso como matar alguém, havia sido por um bom motivo. – Por que você atirou? – Melvin perguntou ainda olhando para o cadáver.

- Ele merecia! – proferiu o camponês de mãos fechadas e com profunda irritação.

- Punição?... Você conseguiu salvar a Joana com essa punição? Achou que isso iria trazer ela de volta? – Melvin pôs seu olhar sobre os restos mortais de Joana, não muito longe de onde estavam. – Ela continua ali... sem vida.

- Foi isso o que eu não aceitei – disse Florisval com claro agastamento. – Um cara como esse não poderia mais viver depois do que fez. Se ele continuasse vivo, quantas pessoas mais poderiam morrer por causa dele? Esse homem é desprezível para o mundo.

- Não era mais. Eu consegui salvá-lo. Se você não tivesse atirado a flecha, ele provavelmente seria uma pessoa completamente diferente. – Melvin disse finalmente olhando para o floricultor. – Então posso chamá-lo de assassino.

- Ele era uma pessoa ruim, merecia a morte – justificou o chamado de assassino.

 - Não! Merecia a salvação – O mago levantou-se e olhou para o resto do campo. – Eu te mostrei naquela vez, não foi? O ladrão que queria atear fogo no seu campo foi salvo pela luz da conscientização. –Voltou a fitar o camponês. – O mesmo seria com Adler, se não o tivesse matado. Eu o salvei, e você o assassinou. – As palavras soaram penosamente na consciência de Florisval. Mas o ódio pela morte de Joana ainda permanecia forte dentro dele.

- Que diferença faz? Joana não merecia morrer daquela maneira. Ela era uma boa pessoa. Adler apenas pisava sobre os inocentes conseguindo o que sempre queria. Como eu poderia deixar uma pessoa que fez tantas barbaridades sair impune? Era ele quem merecia ter morrido no início.

- Ele morreu. Mas eu o tinha salvado – O mago insistia em seu argumento.

- Então é assim que você age? – disse o camponês num leve tão irônico. – Salva as pessoas que fizeram maldades durante toda a vida enquanto as que sempre seguiram o caminho do bem morrem em sacrifício destas. Se o que eu fiz foi um ato cruel, nesse caso então eu não me arrependo, pois não deve fazer diferença para você.

- É claro que faz – Melvin falou olhando novamente para o que sobrou do corpo de Joana. – Quem sempre faz o bem recebe algo bom no final. Mas o mal criado por outras pessoas atrapalham essa boa recompensa ocasionando o que houve agora há pouco. O meu objetivo é acabar com esse mal e salvar pessoas como a Joana.

   O sentimento que sentia pela amada cresceu ainda mais dentro de Florisval, e ele ajoelhou-se no chão. Suas mãos arrastaram um pouco de terra entre os dedos, tentando amenizar sua frustração, raiva, e tristeza. Seus olhos marejados se fecharam e um baixo choro pôde ser ouvido.

- Se você salva pessoas como ela... – Florisval disse em meios aos soluços causados pelo choro, e em seguida, fitou o mago numa feição desesperada. – POR QUE VOCÊ NÃO A SALVOU?    

   Melvin ficou surpreso com a pergunta feita de forma gritante e furiosa pelo camponês, que caiu novamente no choro.

- Por que eu não a salvei...? – murmurou para ele mesmo, ainda chocado com a pergunta. – Não a salvei... – repetiu novamente. – Não a salvei... não a salvei... – O mago mergulhou então numa memória distante.

 

   Um lugar totalmente escuro era onde Melvin se encontrava. O jovem mago adolescente estava agachado de joelhos com sua mão sobre a cabeça e com seus olhos fechados. Sua sombra cinzenta adiante era a única cor além do preto naquele sinistro local. O ambiente parecia algum tipo de tormento para quem estava nele.

   Os lábios de alguém surgiram em algum ponto da escuridão. Uma voz conhecida soou de forma penosa para o mago.

- Por que você não a salvou? – perguntou a voz da pessoa que parecia ser um garoto da mesma idade de Melvin.

- Eu não consegui... Eu não consegui... – o mago de cabelos lilás repetia tentando justificar o seu erro, mas de forma frustrada.

- Eu te odeio! Eu te odeio! – bradou o outro jovem de maneira tão intensa que ficou marcado na mente do mago que escutava.

- Não foi culpa minha! Eu não podia fazer nada! – Melvin gritava com pena, totalmente atormentado por aquela voz. A tristeza e culpa em seu tom era notável, mas era irrelevante para a mesma pessoa que falou em seguida.

- Eu te odeio – terminou num tom mais calmo, mas com a mesma animosidade de antes.

 

- Eu não consegui... – Melvin levantou o olhar saindo de seu transe, e fitou o corpo de Joana. Sua mente imergia entre o presente e o passado.  –... salvá-la.

. . . . . . . . . . .

   O mesmo cômodo de seu último sonho. Adler olhava novamente para o seu pai em frente à janela, por onde entrava a fraca luz do luar. Suas mãos ainda jaziam para trás.

- Pai – sibilou o homem, parado enquanto fitava Silmor. Este falou sem mover os olhos para o filho.

- Você falhou, Adler. Não pode mais carregar o nome “Collens” no peito.

- Está errado, pai – disse o homem com um olhar distante. – Eu falhei durante toda a minha vida.

- Adler... – o pai virou-se finalmente para o filho. – Você está morto. Mas suas chamas te consumirão e você as dará vida própria. – Essas foram as últimas palavras de Silmor antes de  desaparecer lentamente. Adler ficou olhando a imagem do pai sumir. Apenas a luz do luar incidia sobre o cinzento chão onde Silmor encontrava-se anteriormente.

   E assim como antes, uma tímida chama apareceu de forma súbita na lareira próxima. Adler a fitou com uma expressão de estranhamento. O fogo se alastrou pelas lenhas e aumentou de volume. A imagem de um rosto flamejante formou-se nas chamas. Mesmo sendo pouco nítido, aquele sinistro olhar transmitia uma sensação ameaçadora para Adler. Este deu um passo para trás temendo aquele estranho fenômeno.

- Você não o matou – proferiu a face flamejante de forma grossa e sinistra. – Então... eu o farei.

   Imediatamente, as chamas saíram da lareira e pularam para o corpo de Adler. O homem ficou se retorcendo e gritando enquanto as chamas tomavam todo o seu corpo. Ela parecia uma cobra flamejante lhe enrolando para abocanhá-lo no final. A imagem do rosto flamejante subiu até acima da cabeça, e investiu da mesma forma que uma cobra faria com sua presa. Entretanto, não foi a boca que se chocou contra a parte de cima da cabeça de Adler, e sim a imagem inteira de seu rosto. Nesta hora, uma coluna chamejante pareceu ter caído sobre o corpo do homem, fazendo-lhe soar seu último grito antes da verdadeira morte.

 

 

Capítulo 11

Fogo ascendente

 

- Florisval... – O mago se aproximou do homem que ainda ajoelhado, derramava prantos pela morte de sua amada. -... É melhor você descansar. Não irá melhorar se continuar chorando aqui.

- Como se fizesse alguma diferença. Não sei como posso me sentir melhor depois disso – disse o camponês arranjando um tempo entre seu choro. Melvin suspirou lamentavelmente. Sabia que também tinha culpa pela morte de Joana, mas não queria ficar relembrando isso a todo o momento. O tormento seria demais para ele, sem contar que o faria lembrar-se de outros eventos como a lembrança que teve há poucos instantes.

   Nessa hora, aconteceu algo inesperado. Sentiu uma anormal onda de Energia Volaki. “Não pode ser. Quem mais estaria aqui com uma Energia Volaki?” pensava o mago. Mas o que mais lhe perturbava era a incrível intensidade desta energia. Foi tão forte que fez seu corpo estremecer por alguns décimos. Rapidamente virou-se na direção de onde a sentia, e viu apenas o corpo de Adler com uma peculiar anomalia.

   Uma tímida chama pairava sobre o peito do homem morto queimando o tecido que lhe cobria. O pequeno fogo começou a se alastrar pelo peitoral de Adler até que o mesmo se encontrou cercado totalmente pelas chamas. Florisval havia parado o seu choro quando seus olhos notaram aquele estranho fenômeno. Melvin também mostrava uma feição surpresa.

- O que é isso? – murmurou o mago para ele mesmo.

   As chamas começaram a soprar para a direção do peito de Adler, como se o vento estivesse movimentando-a, mesmo que não existisse nenhum naquele momento. O fogo começou a caminhar para esta região deixando as outras partes do corpo, que sofreram um grave dano de queimadura. Quando uma boa parte do fogo encontrava-se sobre o peitoral do homem, as chamas começaram a girar ao mesmo tempo em que se erguiam para o alto. A imagem era semelhante a um redemoinho flamejante que tomava cada vez mais altura. Chegou o ponto em que atingiu mais de três metros enquanto seu volume aumentava. Florisval e Melvin levantaram seus pescoços acompanhando aquele estranho redemoinho de fogo.

   As chamas encontravam-se totalmente no redemoinho, que se desencostou do corpo de Adler, e começou a ascender ao céu.

- Afaste-se! – gritou o mago para o camponês. Ambos se afastaram daquela estranha imagem. Florisval não fazia idéia do que acontecia. Melvin queria muito saber, mas algo mais lhe dava uma pista. – Que quantidade absurda é essa de Energia Volaki? – disse olhando para o redemoinho tampando o sol de sua vista. O ar quente colidia com as duas pessoas na terra, fazendo seus cabelos se moverem.

   O redemoinho de fogo alcançou os cinco metros de altura enquanto flutuava no céu. Florisval passou a ter um enorme medo daquela figura aterrorizante. Um pequeno estouro de chamas saiu pelo cume do redemoinho queimando o ar quente e a visão do céu azul. Mais um estouro, e em seguida, uma pequena porção das chamas começou a emergir lentamente da lateral do redemoinho.

   A tal parte das chamas emergindo assemelhou-se vagarosamente com um rosto. Logo, puderam-se ver dois olhos, que mais pareciam buracos; um nariz e uma boca sem dentes. As chamas que compunham o rosto modificaram-se até que a superfície deste ficasse o mais plano possível. A face chamejante inclinou levemente o olhar para baixo. O mago e o camponês notaram uma feição diabólica grudada na lateral do redemoinho lhes encarando.

- Melvin... o que é aquilo? – perguntou Florisval, alarmado e de olhos arregalados. A mesma surpresa podia ser vista nos olhos do mago. Mas em seu caso, ele tinha uma vaga idéia do que estava ocorrendo.

   A face chamejante abriu sua boca o máximo que pôde, e de dentro dela saiu um enorme jato de fogo que se direcionou para onde Melvin e Florisval estavam. O mago rapidamente levantou seu cajado e lançou uma rajada de água da mesma proporção das chamas que se colidiram em seguida. Os dois ataques vistos de forma inclinada continuaram sendo lançados enquanto se chocavam na média distância entre os oponentes. Florisval apenas observou a nuvem branca se formar na colisão do fogo com a água. Por causa da escassa visibilidade, não se sabia quem ganhava a disputa. Melvin cerrava os dentes enquanto aplicava sua rajada de água com mais intensidade. Ele estreitou os olhos, e em seguida, dois pequenos feixes de água, que originalmente provinham do ataque principal, saíram da fumaça branca e se dirigiram para atacar a face flamejante. Entretanto, duas chamas se desprenderam da rajada de fogo que saia da boca do inimigo e colidiram com as duas mini-rajadas do elemento oposto. Dois vapores de resfriamento se formaram e logo desapareceram. Pouco depois, mais duas pequenas rajadas do mesmo tamanho das anteriores saíram novamente do ataque principal jorrado pela ardente face assustadora.

   O mago foi pego de surpresa pelas duas rajadas que atravessaram a nuvem branca e apareceram a poucos metros de distância. Melvin usou a mesma tática de seu inimigo, e outras duas rajadas saíram da principal e foram de encontro com as do oponente.

- Isso não pode continuar assim – ponderou sobre a situação. – Florisval, se afaste! Eu vou soltar a magia. – gritou para o camponês que se encontrava bem próximo. Este correu para a esquerda se afastando do mago como ele pediu. Melvin cessou a água que saia de seu cajado e correu para a direita. Sem encontrar mais resistência pelo caminho, a rajada chamejante atingiu o solo espalhando as chamas pela terra ao mesmo tempo em que levantava poeira.

   O rosto de fogo notou o mago saindo da nuvem branca e correndo à direita de onde ele deveria estar. Melvin esgueirou-se para a face que cessou seu ataque imediatamente enquanto lhe acompanhava com o olhar. O arranjo facial virou-se lentamente, aproveitando o formato do redemoinho,  para fitar o mago novamente.

- Está vindo atrás de mim! – percebeu o mago enquanto corria sem tirar sua atenção do oponente que prendia seu olhar sobre ele.

   O redemoinho continuava fixo no alto, mas o rosto que dele saia, fitava o homem de capa negra. A boca ainda alargada soltou um pequeno tiro flamejante na direção do mago. Este observou o arremesso se aproximando e aplicou mais velocidade em suas pernas. O ataque colidiu com o solo a poucos metros atrás dele, levantando terra como se fosse uma explosão. Melvin permaneceu com sua corrida, atento ao próximo tiro lançado pelo inimigo. Dessa vez, foram vários em curtos intervalos.

- Droga! – rezingou o mago correndo para se esquivar dos ataques. Os tiros colidiam com mais freqüência ao chão, e cada vez mais próximos do alvo. Um deles quase atingiu sua capa negra. – Eu não posso ficar fugindo pra sempre! – disse o mesmo contestando sua própria ação na batalha.

   Melvin mudou sua direção e correu para frente, de encontro ao inimigo. Os tiros de fogo continuaram sendo lançados, mas o mago aproveitou-se de sua agilidade e desviou das investidas frustrantes da criatura chamejante, que acertava apenas o solo ao lado do mago. Este, por sua vez, queria um ataque mais direto ao redemoinho, e por isso teria de se aproximar mais do oponente. Os tiros provaram-se inúteis, mas continuaram não permitindo tempo necessário para Melvin contra-atacar com alguma magia de água.

   Em meio aos seus desvios, o mago notou a base do redemoinho se abrir, tornando-se um orifício alaranjado. Estava a poucos metros deste, quando de repente, uma forte rajada de fogo saiu de dentro do buraco colidindo com o solo, mas de forma gentil sem causar o mesmo estrago que os tiros flamejantes. Formou-se então uma coluna de fogo que ligou o solo à base do redemoinho. Por causa do forte vento abrasador causado pelas chamas, Melvin colocou uma de suas mãos sobre o rosto. Na coluna, uma face semelhante a que estava no redemoinho apareceu.

- Magos devem morrer! – pronunciou a face num tom forte. Melvin surpreendeu-se pela voz e pelo o que ouviu.

   O rosto de fogo no redemoinho não era visto de forma clara no campo de visão do mago, e por isso, não percebeu quando ele cessou os tiros e passou a derramar um líquido meio alaranjado na terra. Melvin, que estava distraído pelo rosto da coluna que desaparecera em seguida, olhou para cima a tempo de ver algo prestes a cair sobre ele.

- O que!? – gritou surpreso, e rapidamente usou sua Energia Volaki de vento para rodear os pés e criar um impulso que o fez dar um enorme salto para trás, a tempo do estranho líquido incandescente não cair sobre sua cabeça. No ar, Melvin notou o líquido alaranjado derramando-se sobre o campo florido. – Isso é... lava?

    O fluido jorrado pela face flamejante cessou, e sem perder tempo, seus olhos centraram no mago ainda no ar, há quase cinco metros de altura. Melvin percebeu tiros de fogo lançados pela boca ardente do inimigo. Não gostando da pressão que o oponente lhe exercia, Melvin tentou se defender lançando tiros de água semelhantes aos que vinham em sua direção. Um... dois...três....quatro...cinco tiros foram anulados pelo mago, que pousou finalmente sobre o solo.

   Quando se pôs a olhar novamente para o oponente, este já lhe mandava uma rajada de fogo da mesma proporção da primeira.

- Ele não vai me dar espaço desse jeito! – disse o mago sentindo-se cada vez mais encurralado. Pulou novamente usando o vento para saltar com impulso. Dessa vez, usou mais afastamento do que altura para se desviar. Sem querer gastar energia, na hora do pouso, seus pés se arrastaram pela morta grama do campo, com seu corpo meio que inclinado para frente.

   A rajada de fogo cessou. Melvin tentou refletir sobre a batalha mesmo sabendo que não havia muito tempo para tal ponderação.

“Essa coisa parece que está disposta a me fritar de qualquer maneira. A julgar pela sua imagem, parece que sua energia é quase que ilimitada. Aquilo não passa de pura Energia Volaki sem um recipiente. Então sem as limitações de um corpo ela é quase que inesgotável.”

   Da boca da face inimiga foram lançados novos tiros flamejantes. Melvin usou do Elemento Vento para fazer o mesmo tipo de desvio anterior. Enquanto ocupava-se pulando de um lado para o outro para desviar das consecutivas investidas de fogo, sua mente também se preocupava em arranjar uma saída para aquela situação.

“Elemento fogo é fraco contra água. Eu apenas preciso de uma estratégia que faça com que um ataque de grande potência o atinja. Talvez ele tenha algum ponto vulnerável que não esteja vendo.”

   Melvin tentou olhar para o redemoinho de forma que pudesse analisar algo nele. Entretanto, os tiros que vinham dele, impediam ter a atenção necessária para o caso.

“Droga! Nunca conseguirei pensar em algo se não sair dessa posição. Aquele redemoinho... Tenho que atingi-lo com água... Já sei! O topo.”

   Florisval, que havia se afastado do local da batalha, observava preocupadamente da frente de sua casa, a situação do mago.

- Melvin... – sibilou o camponês.

   Os tiros lançados pararam, e Melvin viu a chance que tanto queria. Rapidamente, ergueu o cajado para o alto.

- Chova! – gritou o mago enquanto uma coluna água erguia-se de forma preguiçosa da ponta de seu cajado.

   Da boca da face flamejante, pôde-se notar um fogo mais vermelho que cintilava ali dentro. Uma luz da mesma tonalidade foi emitida, e em seguida, uma rajada flamejante toda avermelhada foi lançada. Melvin notou o estranho fogo se aproximando e se desfez de sua técnica para desviar saltando para o lado. A coluna de água que até então estava sendo formada se desmanchou, e pouco depois a rajada ainda a atingiu, bem como o solo em seguida. O ataque se arrastou pelo campo como uma furação engolindo tudo para dentro dele, mas que nesse caso, era tudo queimado. Após a rajada se estender por mais vinte metros na terra adiante, ela cessou revelando seu estrago. Toda a vegetação que havia lá fora modificada por uma trilha de enorme largura com uma aparência muito incomum. O solo era formado por uma terra escura que pareciam cinzas negras, por onde saia fumaça. O mago sentiu um odor queimado no ar vindo daquela região. A maior surpresa dele foi quando mãos de pele alaranjada semelhante a ferros em brasa emergiram daquele solo.

- O que!? – O mago observou cabeças insurgindo, seguidos de todo o corpo que se mostravam a luz do dia. Tinham uma carcaça humanóide, não possuíam cabelos, e as expressões de seus rostos não eram bem definidas, assim como a face no redemoinho. Quando seus corpos jazeram totalmente sobre o solo de onde saíram, ficaram com o corpo inclinado para frente, como se fossem zumbis. – Isso só pode ser brincadeira! – disse o mago não gostando nada das sete criaturas que eclodiram naquele lugar. Elas não falavam, apenas sibilavam como zumbis de verdade.

   De cada mão dos zumbis, bolas de fogo começaram a se formar. Eles encararam o mago de forma ameaçadora por mais que seus rostos não expressassem isso de forma clara. Melvin olhou para a face flamejante do redemoinho e percebeu que esta movimentou sua boca para dar um sorriso enquanto estreitava os olhos. Uma cara feliz que escondia pura maldade.

- Maldito! – xingou o mago, voltando sua atenção para os zumbis quando um deles soltou  uma bola de fogo. Melvin desviou desta e da seguinte. Começou a pular para os lados tentando dificultar a mira dos sete oponentes, que após lançarem a bola de fogo, mais uma crescia em suas mãos.

“Os ataques não estão sendo feitos de uma vez só. Estão lançando-os em intervalos regulares para que eu não possa ter tempo de contra-atacar. Droga! Esses são tão irritantes quanto aquela face.”

   A fim de complicar ainda mais a vida do mago, o rosto do redemoinho soltou uma rajada de fogo comum, e Melvin rapidamente notou pelo barulho. Como não havia tempo para desviá-la, já que também era pressionado pelas bolas de fogo, usou seu último recurso.

- Coluna de água! – gritou ao mesmo tempo em que se agachou e tocou a parte de baixo de seu cajado no chão. Uma coluna de água surgiu lhe envolvendo e girando em volta de quem a invocou. Ergueu-se para o céu como uma pilastra. As bolas de fogo e a rajada colidiram com ela originando uma nuvem de resfriamento.

   Os ataques cessaram, e tanto os zumbis como a face flamejante esperaram a nuvem se dissipar. Após alguns instantes, Melvin se mostrou agachado. Seus olhos fitavam a terra, seu corpo todo molhado por causa da água que o envolveu, e completamente ofegante. Sua magia de defesa havia consumido muito de sua energia de uma só vez, causando um cansaço iminente. Um dos zumbis formou uma bola de fogo, e preparou-se para atirar no mago, que ainda se recuperava.

   Mas neste instante, uma flecha atingiu o corpo do inimigo, que apenas zuniu de dor. A bola de fogo se apagou por conta disso. A flecha que o acertou na coluna foi lentamente sendo incendiada devido às chamas que saiam do corpo do zumbi até o fim da seta. A criatura olhou a flecha sendo queimada lentamente. As cinzas da madeira caiam.

   Melvin olhou para a esquerda, e notou Florisval há mais ou menos cinquenta metros com o arco erguido. O camponês estreitou os olhos e puxou mais uma flecha da sacola nas costas. Atirou mais uma vez, mas em outro zumbi. Começou a puxar e a atirar consecutivamente em cada um dos sete zumbis ali presentes. Estes pareciam ter voltado sua atenção para a flecha que os atingira.

- Florisval! – gritou o mago.

- Como você pensa em derrotar essa coisa? – perguntou o camponês, quase gritando por causa da distância. Parecia que o medo havia sumido, devido à vontade de ajudar Melvin na luta.

- Só tenho que atingi-lo com água no topo do redemoinho. – respondeu o mago se levantando. – Continue impedindo os zumbis.

- E você sabe como fazer isso?

- Eu estou tentando descobrir – disse o mago, soando cômico para o camponês. Mas o que Melvin disse anteriormente sobre como vencê-lo despertou sua atenção, e acabou tendo uma idéia.  

- Acho que sei como derrotá-lo! – gritou Florisval, chamando a atenção do mago. – Distraia os zumbis e a face, e eu tentarei deter aquele redemoinho.

- Está brincando, não está? – Melvin gritou achando aquilo impossível, mas sem receber resposta, pois Florisval iniciara uma corrida pelo campo. – Ei! O que pensa que vai fazer? – Melvin tentou chamar o camponês, mas este não dava importância.

   Os zumbis voltaram sua atenção para o mago. As flechas que os distraiam já se encontravam quase queimadas. Melvin também observou a tempo a face do redemoinho quando esta soltou um tiro de fogo em sua direção. O mago se esquivou ao mesmo tempo em que se afastava cada vez mais dos zumbis. Florisval corria em direção à borda do campo, mas especificamente até Joana.

“Tanto os zumbis quanto o rosto do redemoinho parecem focar sua atenção somente em mim. Pelo visto, apenas eu sou o inimigo.”

   Enquanto o mago observava a reação de seus oponentes, também se esquivava dos tiros e das bolas de fogo lançados pelos mesmos. Voltou a desviar usando o salto com impulso da mesma forma de antes.

Florisval, eu não sei o que vai fazer. Mas sugiro que se apresse.”                

   O floricultor se aproximou do corpo de Joana. Pouco havia sobrado dela, visto que apenas algumas partes podiam ser vistas num tom totalmente negro. O vestido que era de sua mãe foi totalmente transformado em cinzas. A região do peito praticamente tinha sido consumida, entretanto, um objeto peculiar jazia entre os seus ossos. Algo de muita cor em meio à imagem negra e cinzenta.

   Ele então se lembrou de quando ambos estavam no campo, no momento em que ele dera aquele presente para ela.

   Florisval retirou uma flor de dentro de seu colete e mostrou a amada. – Essa foi a flor que usei para entrar na caverna e apagar o fogo. Choradella. É uma flor mágica como a Rosa do Ligamento. Eu queria que ficasse com você. – disse dando a flor na mão dela. Joana a pegou, e sorriu.

- Antes de você entrar na caverna, a Rosa do Ligamento, estava aqui dentro  – Joana disse apertando a roupa na região do peito. – Vou colocar a Choradella no mesmo lugar. – a mulher colocou a flor por debaixo da roupa, e a apertou novamente, desta vez sentindo a flor ali dentro.

   Uma Choradella! A flor que Florisval havia lhe entregue pouco antes de sua morte, e que salvara sua vida no dia anterior. E que mais uma vez, poderia ser útil, dessa vez salvando a vida daqueles que anteriormente queriam salvá-la. O favor era retribuído mesmo que Joana nunca soubesse.

  Florisval pegou a flor de forma gentil com seus olhos marejados.

- Obrigado, Joana – agradeceu ele. Puxou uma flecha de sua bolsa nas costas, e usou uma linha em seu bolso para amarrar a flor. Do mesmo jeito, posicionou-a no arco para atirar.

   Melvin estava quase no limite por desviar-se de forma tão rápida e precisa dos ataques que recebia. Os tiros e as bolas de fogo não davam trégua.

“Florisval... Ainda não?” Melvin não agüentaria por mais tempo.

   O camponês levantou-se e fitou o redemoinho de forma determinada. Ergueu o arco e flecha na direção dele. Seus olhos miravam cuidadosamente o destino de seu ataque.

“Eu sei que posso conseguir. Basta apenas me concentrar. Basta apenas me concentrar, como naquela vez.” Uma rápida cena dele atirando na guerra há seis anos lhe passou pela mente.

- Eu posso acertar! Eu vou acertar! – gritou ao mesmo tempo em que atirou a flecha para o alto. Ela saiu com uma velocidade impressionante abrindo caminho entre o ar. Passou a quase trinta metros do redemoinho sem mudar sua direção mesmo com o vento que este provocava nas proximidades. Cruzou a altura do redemoinho de fogo, e sua velocidade foi parando. Sem força para subir, mudou de sentido e começou a cair com sua ponta virada para baixo. E nesta mesma direção, estava o topo do redemoinho de fogo; o ponto que Melvin e Florisval tanto queriam acertar. Por causa da gravidade, ganhou mais velocidade na queda. Mas outra força se aplicava sobre ela.

“Vamos, acerte! Acerte!” Florisval torcia para que atingisse o seu alvo.

   A flecha adentrou firmemente no redemoinho.

- Derrame o seu pranto! Choradella! – exclamou o camponês, finalizando o ataque. A flecha se queimou dentro do redemoinho, mas não a flor amarrada a ela, que sob as palavras do floricultor começou a emanar uma enorme quantidade de água. O rosto do redemoinho soltou um grito angustiante. Melvin notou que uma enorme fumaça branca saia da parte de cima do redemoinho, e logo em seguida, a boca da face passou a emanar nuvens brancas, junto com a água derramada  da flor. O grito que ele proferia era o sinal de que tudo havia dado certo.

- Consegui! – gritou o camponês todo feliz.

- Você conseguiu, Florisval! – disse Melvin que ainda se esquivava das bolas flamejantes dos zumbis. – Agora vou dar um jeito em vocês. – Melvin havia fugido dos ataques observando a movimentação lenta dos oponentes. Aproveitando-se disso incitou-os a ficar onde queria. Esperou que todos se agrupassem em linha reta para atingi-los de uma só vez num rápido ataque. – Rajada de água! – O jato que saiu de seu cajado atingiu uma bola de fogo que vinha em sua direção e em seguida, pegou todos os sete zumbis de uma vez. Melvin continuou lançando a rajada enquanto ouvia os resmungos dos zumbis que eram levados pela correnteza, e aos poucos se apagavam no meio da fumaça branca. – Ótimo! – comemorou o mago.

   O redemoinho ainda sofria por causa da Choradella. Nuvens brancas saiam tanto do cume quanto da boca. A face começou a entrar de volta ao redemoinho. Parecia que a vitória estava certa, mas algo inesperado aconteceu. Chamas violentas foram jorradas na parte de cima do redemoinho sobrepondo as nuvens de resfriamento que logo desapareceram. As chamas que envolviam o fenômeno flutuante começaram a rodar de forma mais rápida fazendo a sua forma mudar.

   Florisval e Melvin olharam confusos e abismados com o que se compunha. O redemoinho havia se transformado em algo semelhante a um tornado girando cada vez mais depressa.

- O que está acontecendo? – Florisval perguntou-se.

- O que vem agora? – Melvin perguntou, irritado com a situação.

   O tornado dissolveu-se abruptamente espalhando inúmeras chamas que desapareceram no ar deixando rastros de fumaça cinzenta. No local onde ele se encontrava, revelou-se um homem.

   Vestia uma bota avermelhada que lhe cobria até a altura canela, a calça de mesmo tom. Portava um sobretudo quase da mesma cor das peças inferiores, mas num tom semelhante a vinho. O sobretudo tinha listras meio cinzentas na borda e alguns botões dourados em linha vertical no peitoral fechando a parte acima da cintura, e deixando a de baixo dividida em dois lados, sobrepondo a lateral das pernas. Tinha cabelos alaranjados compridos e lisos que desciam suavemente pelas costas. Havia uma mecha sua tampando parte de seu olho esquerdo que se apresentava numa cor sangue contrastando com sua face pálida. A feição de seu rosto era séria.

- Ele é... – Melvin sibilou, estático com aquela figura.



Próximo Capítulo: Fantasma Volaki



- Critiquem o primeiro capítulo de ação do volume. Ficou bom?



- Semana passada coloquei um extra. São os jogos antigos do Mundo Sombrio. Então pra quem quiser dá uma conferida naquela bagaça...



- Em “Mundo Sombrio – Sonho de anime” estou adicionando seyuus (pessoas que emprestam suas vozes para personagens de animes) de alguns personagens da série. Então quem estiver curioso pra saber que tipo de voz tem o Melvin e companhia e só dar uma passada lá. :)



- Nova previsão para o término do Volume 01: 18 capítulos.



- No próximo capítulo, algumas revelações sobre a Energia Volaki.





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